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Para a mulher que compôs com Pink Floyd

08 SET 2017
08 de Setembro de 2017

Por Ivan da Luz


Talvez você não tenha ouvido falar de Clare Torry. Mas provavelmente já ouviu a voz dessa senhora inglesa de 70 anos (pelo que sei, continua viva). Ela já gravou com Olivia Newton-John, The Alan Parsons Project, Procol Harum, Meat Loaf e Roger Waters em carreira solo, Rob Gibb, Culture Club e Tangerine Dream para citar os que conheço. Clary também tem alguns álbuns gravados com razoáveis vendagens no Reino Unido.

 

Porém, a canção mais memorável de uma banda famosa em que ela participou da gravação é The Great Gig In The Sky, da obra prima The Dark Side Of The Moon, do Pink Floyd. Cantada em solfejo, a canção se tornou um clássico tão absoluto da banda que ela era repetida em quase todas as tunês que fazia, quase sem mudanças, exceto pelo fato de que, ao vivo, três cantoras se alternavam na execução o que Clare fez sozinha em estúdio. E não pense que ela se utilizou de técnicas para isso.

 

Com a base em acordes de duas canções que Richard Wright compôs pensando em morte e religiosidade, a obra seria complementada somente com frases bíblicas. Mais tarde, a banda teve a idéia de inserir sons de astronautas da NASA, mas não gostaram do resultado. Mantendo algumas frases bíblicas, concluíram a idéia de que fossem o pano de fundo para um lamento de voz feminina.

 

Alan Parsons, que era o engenheiro de som do álbum, indicou Clare, pois ele a tinha visto cantar num show. Clare foi contatada, mas por não conhecer a banda, nem deu muita bola, pois tinha shows marcados com Chuck Berry. Diante da insistência de Parsons, se agendou para aparecer no estúdio desde que pagassem o dobro do habitual por ser num domingo (30 libras).

 

No dia combinado, a banda tocou a parte instrumental para ela ouvir, pedindo apenas que ela fizesse uma linha vocal de lamento. Imaginando ser mais um instrumento, ela gravou duas vezes sua participação. Todos se impressionaram com o que ela acabava de fazer, mas não fizeram alarde. Tanto que Clare, pensando que não tinham gostado, pegou logo seu dinheiro e foi embora. As duas partes que ela gravou foram montadas junto das frases e ela só soube do resultado final quando viu uma cópia do disco e comprou para ouvir em sua casa.

 

A tradução da frase do início da canção, que foi dita pelo zelador do estúdio, é: E eu não tenho medo de morrer. Posso ir a qualquer hora, não me importo. Por que eu deveria ter medo de morrer? Não há razão pra isso- uma hora você vai ter que ir.

 

A frase do fim foi dita pela esposa de um executivo da gravadora: Eu nunca disse que tinha medo de morrer.

 

Sob a alegação de que a EMI jamais lhe pagou direitos autorais, a despeito do imenso sucesso da canção e de ser sua coautora, anos mais tarde a cantora processou a gravadora e um acordo foi feito. Valores não foram revelados, mas, além de ser indenizada, Clare Torry passou a receber, justamente, parte dos direitos autorais por execução dessa pequena obra prima do rock.

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